segunda-feira, julho 02, 2018

Sobre a construção animal

A teia de uma aranha é, também, ela mesma - um processo que resulta numa fibra sintética que sai de si mesma, de seu ventre, e que se estende pelo ambiente. Vejo como se a aranha construísse algo que é uma continuidade de si, por meio do qual ela não só captura alimento (uma casa-caça), mas sente e pensa o ambiente. Esta é a hipótese com a qual filósofos e cientistas trabalham através do conceito de cognição estendida. Os experimentos provam que tipos diferentes de aranhas nem sempre seguem um procedimento automático na captura das presas, pois são capazes de improvisar novas técnicas de captura quando se interfere na estrutura da teia - inclusive nos raros casos de aranhas que vivem em colônias, numa espécie de cognição coletiva.
Para além da controvérsia da tese, de seus experimentos e críticas, é possível arriscar considerações: diferente de um joão-de-barro, o que é a aranha constrói é ela mesma, sai de seu próprio corpo e de seu próprio material. Fascina pensar na hipótese de uma construção que tenha tanto de você quanto você mesmo. 

Cf. ESTEVES, B. Teço, logo existo, in Revista Piauí, Edição 141, Junho 2018. 

sexta-feira, junho 08, 2018

Linguagem

-Camilo, não existem fantasmas.
-Pai, por que existem palavras para coisas que não existem?

Por Adão Iturrusgarai 

quinta-feira, maio 10, 2018

Foice-ferramenta

É preciso ver as coisas, olhá-las nos olhos sem o prejuízo do medo, pois a verdade - ou o que a isso corresponde provisoriamente - vem sob a forma da compreensão desenvolvida desde a situação. Parcial, unilateral, mas ela é, tem existência. No caso: a compreensão muito clara e lúcida de que às vezes o que o outro lado busca é tão somente a pausa, o almoço como respiro na rotina, na semana, no casamento, no trabalho, na vida doméstica, cotidiana, familiar, para se inflar de pretensa novidade; o que se busca é isso e não a pessoa do lado de cá. Tais obviedades cruéis demoram para se formar no nosso pensamento, mas uma vez desveladas, são o caminho doloroso - que permite pular fora. 

quarta-feira, maio 02, 2018

Prédio abaixo

O diagnóstico de Caetano continua presente e triste: everybody knows that our cities were built to be destroyed. Prédio abaixo, vidas fora, fogo sem controle; como é possível que isso - não só o fato, mas a circunstância toda que o propicia - aconteça? 

sábado, abril 28, 2018

Natureza e afeto desdobrados

Há coisas que brotam de dentro e crescem em silêncio, desavisadas, desavisados todos nós. O corpo está em movimento até em suas menores partes e a matéria segue seu curso à revelia de nosso consentimento - se desdobra, se multiplica, se recompõe. De repente soa um alarme e a descoberta se define: as imagens da doença, fotografias em contraste e negativo que me lembraram o retrato íntimo de Hans Castorp na Montanha Mágica - há um fascínio em ver as coisas por dentro. 
Pari passu crescem por dentro outras coisas, pois a vida, enquanto há, é inflexível. Outro início também foi atribuído a uma fotografia, inofensiva, um par de olhos que ainda não pude adjetivar ao certo. Mas estes desdobramentos são suaves, agregam calma, paz; são sentimentos de carinho, de ternura, de um querer-bem preguiçoso e pacífico como um gato deitado ao sol. 

quinta-feira, abril 12, 2018

Lost in translation

- I'm stuck. Does it get easier?

- No. Yes. It gets easier.

- Oh yeah? Look at you.

- Thanks. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you.

sexta-feira, março 09, 2018

Os olhos das mulheres

Uma avó era de um tecido bruto, cru, que resistia a tudo. Ontem seria seu aniversário; da outra, dali quase um mês. As que existiram antes de nós, que sofreram os golpes de faca e de palavra, pavimentaram o caminho onde tudo antes era mata sem clareira. Eu acho que ainda vamos ser interpeladas muitas vezes por aquela sensação cortante no breu da noite de que Conceição Evaristo falava: de que cor eram seus olhos - eu me pergunto, os de minhas avós? De que cor são os olhos da minha mãe e de minhas irmãs? Dois pares são míopes; três, castanhos; todos são olhos de invenção, de cuidado, de atenção, de saber e de ensinar, de arte e de carinho.