domingo, julho 23, 2017

soft and only, lost and lonely, strange as angels

Coisas que se situam no limiar entre a ternura delicada e a tristeza sem motivo e suscitam sentimentos confusos e intempestivos:
o casal de velhinhos na plataforma do metrô Sumaré, 11h. Desceram as escadas e subitamente trocaram um beijo, segurando com força as mãos. Começaram a observar as ruas através das paredes de vidro; apontavam direções, descreviam algo, pareciam um novo casal velho;
o jeito como você fala da sua irmã e carinho para com aqueles dois postais;
o sonho feliz que precedeu a morte do animal de estimação.

segunda-feira, julho 10, 2017

O que vem depois do desejo

O que existe depois de tanto desejar, de querer o outro, lembrar a voz, o trejeito, a sensação no corpo quando próximos mas não juntos - nunca juntos, a impossibilidade - ... ?
Será que alguma hora o desejo se esgota em tanto querer, mesmo sem consumação? 
Será que depois de tanto daydream e de imaginar todas as possibilidades de encontro, todas as configurações de aproximação, de primeiro toque, de primeiro beijo, de primeira foda, de primeiro gozo, será que ainda sobra desejo ou esse já se pulverizou na imaginação?
Isto é - como dar cabo de um desejo que não deveria existir?

sábado, junho 17, 2017

Se você deixar o coração bater sem medo

Se deixar o coração bater sem medo a gente vive assim, essas pequenas saudades. Pequenas interdições cotidianas: não é possível ter o abraço porque o corpo não alcança a distância. Pode ser que dê pra remediar falando de bobagens, trocando foto, receita, contando as coisinhas, mas os pedacinhos estão, sim, espalhados, e não poderia ser diferente. Não fosse assim, talvez não fôssemos nós; a gente se torna o que é nas escolhas. 

Se deixar o coração bater sem medo a gente bate na parede vez em quando. Uma confusão danada esse seu cheiro de cigarro e de coisa diferente, de surpresa escondida debaixo da voz, desvelando aos poucos a personalidade no jeito de menino do interior educado, certinho, em outro ritmo. Mas não pode ser, não vai ser por muitos motivos; tudo errado é o veredicto de que suspeitei desde o começo. Tem umas ingratidões em certas ocupações que a gente assume; uma delas é tentar conduzir as pessoas no caminho da descoberta de potencialidades, daquilo de que são capazes, mas parte disso é deixar partir também enquanto parece que a gente fica parado no mesmo lugar. Olhando as fotos acho que me bateu com força a percepção de que pra todos já há algo, a partitura já escrita, ou, como agora, escrita em tempo real. Não é possível saber disso e conviver com o sentimento; é preciso interrompê-lo, não alimentá-lo, deixá-lo à míngua até morrer, secar e voar por aí num sopro.
Meu nome é nuvem, ventania, flor de vento.

sexta-feira, maio 12, 2017

Pelas ruas

Você sabe, é que parece a mesma coisa. As pessoas estão sempre nos mesmos lugares, no protocolo do agir e do performar. Não é ruim, só é igual, e de tão igual, poderia ser tudo a mesma coisa, ou nada, que daria no mesmo. Com isso se esvai em mim a sensação de que algo - uma conversa, palavra, piada, toque, em qualquer instância - foi realmente única, e isso constitui a ilusão perdida.
E você sabe: nem todos os discos, nem os cafés, nem as fotos, nada disso vai nos livrar de encarar que, fatalmente, vai ficar o núcleo duro e só, o que vai ficar é a voz interna quando a gente põe a cabeça no travesseiro e fecha o olho, logo antes de dormir.  

domingo, abril 23, 2017

O que a maré não viu

Havia tempo
mas só para algumas coisas.

VOCÊ ACREDITA
Em sorte, em jogar na loteria?
Em superstições da ordem de signos, símbolos, sonhos?
Em intuição, inveja, azar?
Em verdades, certezas?
Em amor?
Em méritos próprios?
Em vida extraterrena,
extrassolar?
Em outras dimensões espaciais?

TESTAMENTO
Não sei escrever poesia nem ficção, malemá uns ensaios sobre temas restritos. Sei dar aulas de idioma estrangeiro, cozinhar doce e salgado, sei alguns romances, sei fazer reformas simples e costurar. Aprendo continuamente filosofia. Não tenho talento para plantas, flores; aprendi violão quando jovem, tenho curiosidade incessante por música, pouco tino para relações sociais, meia dúzia de amigos próximos e uma família-base. De dinheiro tenho o mínimo, e vontade enorme de uma coisa principal: adotar um gato. A crença que cultivo é ao mesmo tempo a mais ingênua e mais pretensiosa: no futuro. 

terça-feira, janeiro 03, 2017

Poesia no KZ

Como é possível surgir - em meio ao trabalho, ao gás, à morte, à fome - falha e discreta poesia? Primo Levi mostra o italiano ao Pikolo, esta espécie anacrônica de office boy e estagiário, declamando a Divina Comédia, recitando o inferno dantesco no inferno dos homens. Tem urgência de explicar, traduzir; ele, que vencia os dias sem visão de largo alcance, sem pensamento que não o provisório, e regozijava da espera, de não ter que chutar para longe as horas, agora tinha pressa: é preciso que se compreenda o sentido até então não-desvelado para ele mesmo do Canto de Ulisses e da anunciação da sua morte. 
Há o tempo dos homens livres, o tempo dos condenados em nível que língua alguma é ou será capaz de exprimir, e o tempo da poesia. 
"Para os homens vivos, as unidades de tempo têm sempre um valor, tanto maior quanto mais elevados são os recursos interiores de quem as percorre; mas para nós horas, dias, meses fluíam lentos do futuro para o passado, sempre lentos demais, matéria vil e supérflua de que tratávamos de nos livrar depressa"

quinta-feira, dezembro 22, 2016

Saber do espaço

Por um fio, o corpo encostado no meu, o corpo quente cheio de dúvidas, maravilhado de descobertas, prenhe de força e de agora. Discutimos tudo e nada. A partitura já está escrita para cada um e acompanhamos um movimento juntos num quarto esfumaçado. É um desafio: chegar, manter, ir. A chave é o espaço, mais que o tempo: perto, longe, junto, equilibrar o espaço.