Uma avó era de um tecido bruto, cru, que resistia a tudo. Ontem seria seu aniversário; da outra, dali quase um mês. As que existiram antes de nós, que sofreram os golpes de faca e de palavra, pavimentaram o caminho onde tudo antes era mata sem clareira. Eu acho que ainda vamos ser interpeladas muitas vezes por aquela sensação cortante no breu da noite de que Conceição Evaristo falava: de que cor eram seus olhos - eu me pergunto, os de minhas avós? De que cor são os olhos da minha mãe e de minhas irmãs? Dois pares são míopes; três, castanhos; todos são olhos de invenção, de cuidado, de atenção, de saber e de ensinar, de arte e de carinho.
sexta-feira, março 09, 2018
domingo, janeiro 21, 2018
Sob a patrulha de Alpha 60
As construções de Alphaville: prédios-caixote; luz e vidro nas janelas contra a escuridão da rua; escadas internas: helicoidais vazadas ou em U nas saídas de emergência; amplos átrios; longos corredores flanqueados de portas fechadas.
quarta-feira, janeiro 17, 2018
Todo mundo tem uma história
Linger deve ter sido uma das músicas mais tocadas em rádio por muito tempo desde seu lançamento em 1993. Consequentemente foi uma das canções que mais ouvimos de modo aleatório desde então, e a ela anexamos, quase todos, lembranças. As minhas são da morte da minha avó em 2001 e nem sei bem precisar o porquê dessa relação entre o evento e a música. Lembro vagamente de conversar com minha mãe sobre isso e, ainda que não se trate de um tabu falar dessa morte, não consigo reconstituir como a conversa avançou. De toda forma a relação com a música ficou com esse toque delicado, delicado não enquanto afetação, mas como é o ser de um delicado tecido: mal pousa sobre a pele, escorrega por entre os dedos como se tivesse vida própria.
sexta-feira, janeiro 12, 2018
O ser do que já não é
Retomar hábitos é reencontrar-se numa dimensão que já não é o agora e nem é ainda passado.
Não sei o que ficou ou por que me lembro e penso com tanta frequência, ultimamente, nesses eventos. É como se houvesse a iminência de um acontecimento - um acontecimento que eu jamais seria capaz de produzir. Por mais sintomático que seja pensar nisso e ainda escrever sobre isso agora, tanto tempo depois e no primeiro (e não-revisado) texto do ano, eu não acho que seja o caso de retomar contato. Sinto que a ideia de acerto de contas, de passar a limpo, é fabricada e artificial e apenas um pretexto para reviver aquilo que, sabemos, não é mais o mesmo. Deve ser que pensar sobre isso seja antes uma revisão sobre mim mesma, sobre coisas que não consegui soltar, laços que apesar de fracos não consegui desfazer do lado de cá pois atados numa região muito íntima e de difícil acesso do meu ser, ainda que eu veja a outra ponta voando e pairando livre.
segunda-feira, dezembro 04, 2017
O nome que não é seu
É um desconforto quando o nome não combina com a pessoa. Os pensamentos, os diálogos internos, as lembranças conectam-se com um outro nome, atribuído secretamente para satisfazer a adequação. Pode ocorrer de a voz não cumprir a correspondência e é como se houvesse uma dublagem de si mesmo.
Eu retomo aos poucos esses breves pensamentos por escrito. Senti que nos últimos tempos a minha voz silenciou, também interiormente, talvez resultado de tanta fala arrogantemente corrigida. Parece uma questão de agora retomar espaço, de permitir o ensaio, o erro, a elaboração. Acho que por isso retornam também as lembranças; mas se a roda da vida insiste em conduzir ao mesmo lugar de um desenvolvimento cíclico, é possível se alçar a um novo patamar, a um novo círculo sobreposto.
domingo, novembro 12, 2017
Natureza
Há épocas em que tudo conflui para o surgimento e maturação de um pensamento. Está ali nos textos científicos, no grande romance de formação, na conversa pelo celular, nos cabelos brancos: a natureza.
E não deveria ser diferente. A natureza está ali antes de tudo; antes da arte, antes de pensar as formas sólidas, as curvas, a arquitetura, está a pedra, a madeira, sobretudo o solo. Terra, chão, seja para baixo, nas construções subterrâneas, seja para cima, nas colunas, nos templos, na cabana, nas casas, nos arranha-céus, o solo é o elemento imprescindível. Haverá quem sabe, ou está em vias de existir, uma arquitetura em ar, pairando sem base? Até lá terra é o elemento comum de tudo isto que se expressa em e constitui o espaço, em suas produções no tempo, transformando a natureza.
sábado, setembro 30, 2017
O tempo da ternura
Dava pra sentir o cheiro dali. A voz veio da cadeira na fileira atrás da minha e o hálito alcançou meu nariz - tocou a pele do pescoço, a parte descoberta do ombro, os fios de cabelos que sobravam do rabo de cavalo alto, impregnou nos brincos grandes de formas geométricas. Era uma correção filológica, mas eu sentia e ouvia respiração ruidosa já há alguns minutos na cadeira atrás da minha, indicando que estava muito próximo.
Mas nem era exatamente sobre isso que eu pretendia falar, só que não consigo distinguir todas essas cenas, separá-las, torná-las individuais. São um embolado, um emaranhado de lembranças de eventos diferentes: as mãos grandes, brancas, limpas, pousadas sobre a mesa, os braços fortes que, um dia descobri, quase não têm pêlos. Minha própria mão direita tocando outro braço igualmente forte, um gesto irrefletido, denunciador, logo depois de separar do abraço genuinamente empolgado que recebi, um gesto que desmascarava minha vontade de prosseguir em contato. A perplexidade ao reconhecer dois seres muito parecidos sentados lado a lado. A sensação de fim de temporada, de ciclos se encerrando não só para mim, mas para os que me são próximos, e de novos personagens surgindo. Uma história, uma foto, a pensabilidade agindo: eu quis dizer tome cuidado, eu quis dizer observe, espere, cuide para não se magoar nem magoar os outros, mas que sei eu sobre certos sentimentos, sobre essas mitologias individuais? Então eu nada disse, e pensei, e sigo pensando e tentando organizar argumentos, aplicando a mim mesma o recado: tome cuidado, observe, espere, cuide para não se magoar nem magoar os outros.
Mas nem era exatamente sobre isso que eu pretendia falar, só que não consigo distinguir todas essas cenas, separá-las, torná-las individuais. São um embolado, um emaranhado de lembranças de eventos diferentes: as mãos grandes, brancas, limpas, pousadas sobre a mesa, os braços fortes que, um dia descobri, quase não têm pêlos. Minha própria mão direita tocando outro braço igualmente forte, um gesto irrefletido, denunciador, logo depois de separar do abraço genuinamente empolgado que recebi, um gesto que desmascarava minha vontade de prosseguir em contato. A perplexidade ao reconhecer dois seres muito parecidos sentados lado a lado. A sensação de fim de temporada, de ciclos se encerrando não só para mim, mas para os que me são próximos, e de novos personagens surgindo. Uma história, uma foto, a pensabilidade agindo: eu quis dizer tome cuidado, eu quis dizer observe, espere, cuide para não se magoar nem magoar os outros, mas que sei eu sobre certos sentimentos, sobre essas mitologias individuais? Então eu nada disse, e pensei, e sigo pensando e tentando organizar argumentos, aplicando a mim mesma o recado: tome cuidado, observe, espere, cuide para não se magoar nem magoar os outros.
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