Mostrando postagens com marcador afeto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador afeto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, agosto 16, 2019

Íntimo

O mundo dos homens é uma armação construída de séculos: permissões estruturais, disposição interna, lugares que acolhem. Mas há vida em sua ampla totalidade fora disso; há beleza, mas mal entendidos; sol fraco nos dias de inverno, quando a razão retorna ao seu lugar de dor-de-cabeça, Palas Atena nascida da fronte de Zeus: sabedoria, consciência, lucidez, tudo isso tem seu preço. Eu penso que queria retroceder ao momento em que ainda não havia consciência do desejo, do olhar percorrendo o corpo que iniciou tudo (You're probably just having a mid-life crisis, eu pensei, repetindo o filme), do impacto da interlocução, de certas semelhanças e afinidades, da conversa relaxada no ambiente improvável e belo e calmo, algo rústico, algo ingênuo, quando a indiferença e dissimulações forçadas por circunstâncias não tinham razão de ser. Mas não somos seres do retorno:
A gente foi criado para criar
qualquer que seja o motor da criação.
Muitas das produções sobre e além da terra
não escapam às mãos humanas
que fazem casas, pães, textos,
desfechos de histórias, ao menos tentam, 
até que se eleve o incontrolável.
As boas surpresas me chegam quando estou distraída. Poético, mas uma mensagem também castradora: não tenho então o direito de desejar, de querer conscientemente as coisas?

domingo, março 01, 2015

Fotografia

Quando você partiu, eu sentia dores físicas, no peito. Sufocamentos estranhos e vazios desconhecidos. Estive por dias irreconhecível. Mas, sobretudo as "dores não catalogadas no mundo físico".
E quando mal retornou, das primeiras coisas que me disse foi que sentia uma dor tão forte por ter deixado aos seus lá.
Eu te compreendo, neste ponto. Sei sim como é, mas não disse, pois não devo explicar certas coisas.
Conversamos amenidades e descrições de fotografia. Você me conta que tirou retratos, eu sou remetida imediatamente à leitura recém-acabada de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino: Cauby é fotógrafo e desperta para Lavínia por conta do retrato dela na loja do chinês - justo ela, que se interessava por fotografar tudo, menos retratos. Eu não saberia enunciar exatamente se era a luz, as feições, o olhar escuro ou o quê mais que o atraíam e que o levou a fotografá-la infinitas vezes, compondo o mural perfeito. Mas no final, da melhor fotografia, do derradeiro retrato, só faltou a prova material.