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domingo, março 01, 2015

Fotografia

Quando você partiu, eu sentia dores físicas, no peito. Sufocamentos estranhos e vazios desconhecidos. Estive por dias irreconhecível. Mas, sobretudo as "dores não catalogadas no mundo físico".
E quando mal retornou, das primeiras coisas que me disse foi que sentia uma dor tão forte por ter deixado aos seus lá.
Eu te compreendo, neste ponto. Sei sim como é, mas não disse, pois não devo explicar certas coisas.
Conversamos amenidades e descrições de fotografia. Você me conta que tirou retratos, eu sou remetida imediatamente à leitura recém-acabada de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino: Cauby é fotógrafo e desperta para Lavínia por conta do retrato dela na loja do chinês - justo ela, que se interessava por fotografar tudo, menos retratos. Eu não saberia enunciar exatamente se era a luz, as feições, o olhar escuro ou o quê mais que o atraíam e que o levou a fotografá-la infinitas vezes, compondo o mural perfeito. Mas no final, da melhor fotografia, do derradeiro retrato, só faltou a prova material.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

O caderno

Alguém jogou fora um caderno de desenhos. Algumas anotações, mas essencialmente desenhos. O mistério e a beleza coabitavam nas páginas, nos traços, e o caderno foi resgatado por alguém disposto a encontrar seu dono -  a fim de restituí-lo ou para sanar sua curiosidade? Jamais saberemos. O dono não se manifestou. Daqui eu vejo, porém, que ele continua a desenhar. Alguns dias acha que seu trabalho não é bom o suficiente, outros dias pensa que o problema é com ele mesmo, pois trazer ao público sua arte é assumi-la,sustentá-la, justificá-la. Torná-la real, existente, efetiva, dar a ela um lugar no mundo exigiria também dele uma posição no mundo - para que houvesse sua arte, teria ele mesmo de existir. E quem é ele, quem seria ele? se pergunta.