sábado, dezembro 10, 2016

Ciclico

Me presenteia com uma tempestade, um presente que vem atrasado em alguns anos. Significa reconhecimento e visão horizontal, coisas que talvez eu mesma não reconhecesse um tempo atrás, só tinha vestígios da necessidade disso sob a forma de uma confusão e do desconforto por tudo aquilo que me subestimava. Rola um desenvolvimento brutal nessas idas e vindas; o corpo muda, a mente expande, os sonhos condensam. A personalidade assume caráter de urgência, como a alma transbordando pelos poros em Teresa de Kundera. 

sexta-feira, novembro 11, 2016

Hey, That's No Way To Say Goodbye

Ainda que a arte tenha esse quê de eterna, o que fazer da morte do artista?

domingo, outubro 23, 2016

Paraíso, 19/10, 11h30

O velho na calçada abordava as pessoas, mas ninguém queria comprar nada - tampouco ele queria vender, só distribuía medalhas de Nossa Senhora. Deve se tratar de alguma promessa, pensei, e lembrei das salas de santuário que visitei quando criança e nos inúmeros testemunhos de pagamento de promessas: próteses, recortes de jornal, cartas, mórbidos materiais de agradecimento. E o cheiro de vela.  
Mas no momento do velho das medalhas em vez de cheiro de vela, havia o cheiro de milho cozido, que invadia a estação de metrô. Um cego esperava placidamente, a cabeça levantada, capturando sons. Motor, conversa, passos, buzina. E o cego sorria como quem vê algo que os demais não notam; talvez as primeiras notas escapando do violino que um rapaz começara a afinar dentro da estação.
Do lado de fora eu andava e observava os prédios. Uma igreja, prédios espelhados de gente de negócio, comércios informais, padarias de esquina com mesas na calçada, postos de gasolina. Escola alemã. Supermercado, lotérica, papelaria. No fim da rua uma feira, e então: cheiro de pastel, gosto doce de morango, ácido do abacaxi, cheiro de peixe. O rapaz do alho que oferece o produto sem olhar nos olhos e depois desvia da gente como quem foge do diabo. Bom dia, morena; bom dia, menina: mantenho os fones de ouvido mesmo sem música. Uma velha japonesa passa lépida com o carrinho cheio. 

quarta-feira, outubro 05, 2016

Mar aberto, mar adentro

Lugares: sempre sonho que estou em mar aberto, por vezes me afogo. Fato é que é sempre um fascínio, o sublime, o imensurável, o temor. Um lapso no tempo e a onda me cobre, enorme, escura, profunda, no sonho sinto a textura da água. É o chamado retorno ao seio do mundo; um chamado de retorno, bem sei. A onda indo e vindo no corpo, a cabeça pende pra trás, o mar é uma coisa descabida.
Uma vez, em Florianópolis, fiquei ilhada com outras pessoas após uma trilha mal-sucedida. Chovia, não havia como retornar, estávamos despreparados - de chinelo e passávamos frio. Um barco buscou aos poucos as vinte pessoas na mesma situação que eu, e nada até então me preparara para a sensação de estar levemente à deriva em mar aberto, um barco minúsculo na imensidão profunda feito boca da noite, as ondas tocavam a beirada do barco, mar revolto, o barco balançava, a distância entre a beira da onda e a beira do barco diminuía ferozmente. Pessoas vomitavam, sentiam vertigem. Lembro de pensar que facilmente poderíamos morrer ali. O barco foi contornando a praia, a encosta montanhosa apareceu imponente: o que antes era prainha agora era verde que descia até tocar o mar, verde-azul, azul escuro. Nós, o mar, o mato, o céu. Eu nunca vou me esquecer do impacto disso, da dimensão do meu tamanho ínfimo, da minha existência frágil, naquele sem-fim. Meus olhos enchem dágua como se eu estivesse lá ainda agora.

sábado, setembro 24, 2016

Sobre dois ou mais

Sem disfarces, sem carão, sem pose. Quanto mais as relações se aproximam da essência, para além das embalagens e das atribuições externas, mais puras podem ser. Talvez não sejam mais fáceis, mas ao menos mais sinceras, mesmo quando dolorosamente sinceras.
Minha formação não me resume. Meu trabalho não me resume, meu corpo, meu rosto, minhas marcas, nada disso esgota o que sou. Todas essas coisas me compõem, mas não me definem.

terça-feira, setembro 20, 2016

Aquarius, mar e lembrança

Mar revolto
Vi o mar pela primeira vez quando eu já era adulta. Um fascínio. Desde então, faço menos visitas à praia do que eu gostaria, mas estive todos os anos - fisicamente. Porque em sonhos estou sempre no mar. O pesadelo mais frequente que me acomete é o da onda me cobrindo, eu estou no mar mas também estou de fora, duplicada, vendo e vivendo a cena. É uma coisa mais cinematográfica.
O mar é o sublime, o que causa medo e curiosidade, o sem-fim. Como é nadar no mar? me pergunto.  

Sônia-Braga-Clara, a moça bonita da praia de Boa Viagem
Sônia Braga saindo do mar em Aquarius, de maiô preto, os longos e fartos cabelos negros, a pele pedindo para ser filmada, a postura de quem é por si, em cada pequeno gesto, uma força. Houve alguma cena em que definitivamente me senti eletrizada pela visão de Sônia-Braga-Clara.

Os fantasmas e lembranças que habitam móveis e casas
Aquarius, sobre o qual eu não tinha ideia formada, diz muito no não-dito. A empregada do passado que habita atual a casa fortalece a tensão, mas não só ela. O móvel de madeira, prenhe das lembranças sexuais da tia idosa, é a presença daquilo que se quer negar: o velho vive, a despeito das tentativas de encerrá-lo em lugares seguros, limpos, estéreis. Vive uma vida plena, resiste e entende o peso da vida. Quando pressionada a vender o apartamento mediante o valor exorbitante oferecido pela construtora, Clara exclama: mas aqui é Boa Viagem! Os lugares têm peso, representam um papel. O batente cor de creme, as grandes taças de vinho, o sofá, o guarda-roupa, a cama, os objetos no criado-mudo, tudo isso é testemunha de uma história. E o livro - que momento! A filha de Clara, Ana Paula, deixa escapar, com tom de crítica, que a mãe abandonara os filhos por dois anos para viajar ao exterior, deixando-os aos cuidados do pai. À esquerda da fala da Ana, um dos filhos de Clara se levanta, aproxima-se da estante, recolhe um livro e retorna, pousando-o no colo da irmã. O livro é de Clara, resultado de sua pesquisa sobre Villa-Lobos, e a dedicatória, dolorida, é aos filhos e ao tempo que lhes fora roubado.
Esse livro e sua dedicatória condensam a história de uma família.

segunda-feira, setembro 05, 2016

O tempo da lembrança

A lembrança se localiza no tempo real ou possui uma duração própria? Isto é: lembrar de um fato restitui o desenvolvimento original ou cria um percurso temporal novo? 
Como transcorre o tempo na lembrança?
Me parece possível condensar a lembrança, transformando meses a fio em um só ato de rememoração; da mesma forma, parece que dá pra estender uma ação, desdobrá-la em sequências e ângulos.

Mas como? O que é que se estende e condensa? Qual a matéria da lembrança?