quinta-feira, maio 10, 2018

Foice-ferramenta

É preciso ver as coisas, olhá-las nos olhos sem o prejuízo do medo, pois a verdade - ou o que a isso corresponde provisoriamente - vem sob a forma da compreensão desenvolvida desde a situação. Parcial, unilateral, mas ela é, tem existência. No caso: a compreensão muito clara e lúcida de que às vezes o que o outro lado busca é tão somente a pausa, o almoço como respiro na rotina, na semana, no casamento, no trabalho, na vida doméstica, cotidiana, familiar, para se inflar de pretensa novidade; o que se busca é isso e não a pessoa do lado de cá. Tais obviedades cruéis demoram para se formar no nosso pensamento, mas uma vez desveladas, são o caminho doloroso - que permite pular fora. 

quarta-feira, maio 02, 2018

Prédio abaixo

O diagnóstico de Caetano continua presente e triste: everybody knows that our cities were built to be destroyed. Prédio abaixo, vidas fora, fogo sem controle; como é possível que isso - não só o fato, mas a circunstância toda que o propicia - aconteça? 

sábado, abril 28, 2018

Natureza e afeto desdobrados

Há coisas que brotam de dentro e crescem em silêncio, desavisadas, desavisados todos nós. O corpo está em movimento até em suas menores partes e a matéria segue seu curso à revelia de nosso consentimento - se desdobra, se multiplica, se recompõe. De repente soa um alarme e a descoberta se define: as imagens da doença, fotografias em contraste e negativo que me lembraram o retrato íntimo de Hans Castorp na Montanha Mágica - há um fascínio em ver as coisas por dentro. 
Pari passu crescem por dentro outras coisas, pois a vida, enquanto há, é inflexível. Outro início também foi atribuído a uma fotografia, inofensiva, um par de olhos que ainda não pude adjetivar ao certo. Mas estes desdobramentos são suaves, agregam calma, paz; são sentimentos de carinho, de ternura, de um querer-bem preguiçoso e pacífico como um gato deitado ao sol. 

quinta-feira, abril 12, 2018

Lost in translation

- I'm stuck. Does it get easier?

- No. Yes. It gets easier.

- Oh yeah? Look at you.

- Thanks. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you.

sexta-feira, março 09, 2018

Os olhos das mulheres

Uma avó era de um tecido bruto, cru, que resistia a tudo. Ontem seria seu aniversário; da outra, dali quase um mês. As que existiram antes de nós, que sofreram os golpes de faca e de palavra, pavimentaram o caminho onde tudo antes era mata sem clareira. Eu acho que ainda vamos ser interpeladas muitas vezes por aquela sensação cortante no breu da noite de que Conceição Evaristo falava: de que cor eram seus olhos - eu me pergunto, os de minhas avós? De que cor são os olhos da minha mãe e de minhas irmãs? Dois pares são míopes; três, castanhos; todos são olhos de invenção, de cuidado, de atenção, de saber e de ensinar, de arte e de carinho.

domingo, janeiro 21, 2018

Sob a patrulha de Alpha 60

As construções de Alphaville: prédios-caixote; luz e vidro nas janelas contra a escuridão da rua; escadas internas: helicoidais vazadas ou em U nas saídas de emergência; amplos átrios; longos corredores flanqueados de portas fechadas.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Todo mundo tem uma história

Linger deve ter sido uma das músicas mais tocadas em rádio por muito tempo desde seu lançamento em 1993. Consequentemente foi uma das canções que mais ouvimos de modo aleatório desde então, e a ela anexamos, quase todos, lembranças. As minhas são da morte da minha avó em 2001 e nem sei bem precisar o porquê dessa relação entre o evento e a música. Lembro vagamente de conversar com minha mãe sobre isso e, ainda que não se trate de um tabu falar dessa morte, não consigo reconstituir como a conversa avançou. De toda forma a relação com a música ficou com esse toque delicado, delicado não enquanto afetação, mas como é o ser de um delicado tecido: mal pousa sobre a pele, escorrega por entre os dedos como se tivesse vida própria.