Pra mais de 40 dias - o tempo da quaresma - durou a desintoxicação. Sem dúvida, é o tempo que levou para sair do corpo. Eu penso: é possível sentir uma pessoa muito querida se afastando, deixando seu convívio. E é possível sentir quando você quer afastá-la, ou afastar a lembrança dela. Eu sinto o interesse partindo, a percebo caindo no campo das pessoas comuns, das quais as notícias não são procuradas, elas chegam, às vezes e nem sempre. E sei que logo logo em breve vou vê-la com alguém e que isso não vai significar senão o que não tinha percebido desde o início: que ela não gostava de mim como eu gostava dela. E a vida vai seguir. Pode ser que daqui uns meses ela me procure, a gente se veja e se toque de novo, pra nunca mais. Pode ser que esse nunca mais chegue antes também ou já esteja em processo. Pode ser que em breve eu passe a tê-la na mais alta estima como alguém legal do passado, pode ser, pode ser. O importante é que eu volte, urgente e definitivamente, a ser de quem devo ser - de mim mesmo. Que eu tenha consciência da felicidade que é estar comigo mesmo cozinhando no pequeno cômodo, inventando receita, pensando em pôr flores na janela, lavando roupa, trocando lençol, preparando aula, escrevendo o futuro.
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domingo, abril 05, 2015
sexta-feira, abril 03, 2015
A origem do problema
Por que espero carinho de alguns e não aceito de outros? É preciso coragem para aceitar a mudança - para ser a mudança. Para aceitar que por trás do desprezo pelo padrão de beleza está uma vontade desesperada de ser descoberta por alguém como a-pessoa-mais-linda-do-mundo. Que por trás do reconhecimento de um futuro sem par está uma crença (logo eu, que julgo não ter crenças) de que ninguém vai me amar. Me entender. Me aceitar mas me estimular a ser melhor. É preciso coragem para ser honesto consigo mesmo.
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sábado, março 28, 2015
Antídoto
Em todas vezes que se aproximam essas sensações sabidamente ruins, contraproducentes, eu busco conscientemente o que possa me fazer bem, me fazer feliz e forte. Reconheço a beleza e o erro, que me ajudam a equilibrar o tratamento e a humanizar o exagero. Eles escancaram:
tudo vai passar!
Como sempre.
E no final, o que resta sou eu mesmo. Por isso me preservo tanto.
sábado, março 21, 2015
Que será isso?
Que será que quer dizer este sentimento pulsando no íntimo como aviso: medo? Insegurança? Reconhecimento de incompatibilidades? Adrenalina?
Jout Jout falava da "teoria da peneira" e de como somos levados a nos modificar - nossa personalidade para restar na peneira de outrem, ou nossa peneira para acolher quem queremos - para causar certos efeitos como engendrar um relacionamento em qualquer nível que seja. Por isso a necessidade de conhecer nossa peneira - em outros termos, conhecer nossas demandas, vontades, desejos, expectativas nas interações.
Levo isto realmente a sério.
No fundo todo mundo gostaria de ser o primeiro a prever e a poder desistir do que fosse dar errado, não?
terça-feira, março 10, 2015
"Você é a saudade de quem?"
Pixado na rua:
"você é a saudade de quem?"
Aparentemente deve ser algo terrível, nesta perspectiva, não ter alguém ou não ser de alguém. Implicitamente se conduz à ideia de que se ninguém nutre por você uma paixão louca, doentia, dessas para toda a vida, você não deve ser lá grandes coisas. É como se o sentimento do outro em relação a você fosse um prêmio.
sexta-feira, janeiro 23, 2015
Dureza
Você me escreveu um email direto e reto - no fim das contas, queria mesmo era cobrar se havia atendido ao seu pedido de ajuda. Não teve "tudo bem", "como você tá?", "como tão as coisas por aí?", e nem de longe qualquer indício de "tô com saudades".
Eu sei que já me disseram sobre o quão negativa pode ser essa tendência a interpretar as frases caçando sentidos ocultos. Sei que você tá ocupado com suas coisas, sei que pode ser seu jeito. Eu sei de todas essas coisas. Sei que deveria tentar ser compreensiva, que não deveria pensar tanto nisso.
Mas é que mais uma vez tocou um alarme ensurdecedor avisando sobre o quanto você não se importa e não está interessado, e que não é isso que quero pra mim. Dos grandes ensinamentos das relações livres estão o cuidado com o outro, que pode muito bem coabitar com nossa autonomia afetiva e personalidades independentes, do mundo. Não vejo cuidado algum ali nas suas palavras. Deve ser porque sequer há relação para se dizer livre.
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sábado, dezembro 13, 2014
Yellow
Parece que foi ontem que eu entrei naquela papelaria ao lado do meu restaurante favorito pra comprar uma agenda pra 2014, porque não estava dando conta dos compromissos - não porque fossem muitos, mas porque eu me perdia e já não acompanhava o ritmo. Aí neste meio tempo essa agenda acompanhou muita viagem e mudança, ganhou muita anotação inútil, compromisso cumprido ou desmarcado, o tempo passou voando e de repente já era hora de comprar uma agenda pra 2015. Antes disso, porém, estivemos na mesma papelaria pra resolver algumas das suas questões práticas e uma parte da minha vida se abriu ali. Nos despedimos até-não-sei-quando (sei, mas não sei se) e o meu coração foi ficando pequenininho como se precisasse de muito tempo pra curá-lo. Porque as despedidas sempre acabam comigo, em especial neste caso, pois não sou eu quem parto, mas fico. É realmente difícil voltar pra casa e encontrar a comida pela metade (o bolo, que de cada pedaço que eu partia pra mim, você comia um pouquinho) e os fios de cabelo curtos e claros na minha cama sendo que a contagem regressiva ainda nem começou, na verdade. Faço a menor ideia de como vai ser ou se eu deveria esperar algo - na verdade: não, porque a sua visão romantizadora do mundo precisa de alimento real e não de ideias. De forma parecida, estes elementos materiais me legaram uma lembrança ao menos acolhedora daquele jeito de estarmos juntos do modo mais colado possível, deitados, abraçados, com as pernas entrelaçadas ou as minhas por cima das suas.
A sensibilidade que você diz, ela pode ser verdade.
Boyhood é também sobre o tempo. Os 15 anos de Mason foram em algum tempo os 15 anos da filha de Ethan Hawke, celebrados com o Black Album. É bonito e essencial que os anos de Mason também sejam os de Samantha, dividindo o quarto, aprendendo juntos a atirar, indo a festas, iniciando os relacionamentos. Boyhood é sobre todas essas coisas que têm seu tempo, mas passam; todas essas coisas que têm sua beleza datada, estas coisas meio inevitáveis que a maioria de nós vai atravessar ou presenciar. Talvez por isso seja tão difícil falar sobre ele.
A sensibilidade que você diz, ela pode ser verdade.
Boyhood é também sobre o tempo. Os 15 anos de Mason foram em algum tempo os 15 anos da filha de Ethan Hawke, celebrados com o Black Album. É bonito e essencial que os anos de Mason também sejam os de Samantha, dividindo o quarto, aprendendo juntos a atirar, indo a festas, iniciando os relacionamentos. Boyhood é sobre todas essas coisas que têm seu tempo, mas passam; todas essas coisas que têm sua beleza datada, estas coisas meio inevitáveis que a maioria de nós vai atravessar ou presenciar. Talvez por isso seja tão difícil falar sobre ele.
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terça-feira, fevereiro 25, 2014
Presente do indicativo e autonomia afetiva.
Tenho umas lembranças antigas de quando ainda nos conhecíamos pouco: uma apresentação sua na mesma sala em que estive ontem. De pé, no ônibus, também me recordei da voz, do olhar e do seu sorriso escapando no rosto, naquele mesmo lugar.
Vejo nossa história nas palavras de outras pessoas: reciprocidade mas impossibilidade.
Tento conciliar esta situação atual com as novas descobertas sentimentais e chego à conclusão - breve - de que é preciso relevar o passado e considerar no presente as pequenas demonstrações de carinho e admiração.
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