quarta-feira, janeiro 09, 2019

Ornamento

Olho a igreja em seus detalhes. É preciso tempo, sentar-se confortavelmente, sossegar o espírito, minimizar os ruídos e diminuir os barulhos que adentram da praça da Sé até sentir, ouvir a atmosfera ondulando na fronte, passando entre os ouvidos. E então: levantar os olhos, mirar as pilastras, os feixes de colunas que conduzem os olhos sempre para cima, onde encontram os ornamentos. São repetições não exatamente geométricas, mas padrões vegetais, ramos com as folhas pequenas levemente descoladas da construção.


Fonte: http://www.imagens.usp.br/?attachment_id=8909

Mais acima está o teto de abóbadas de arestas, um céu pontudo sob a floresta de colunas. 

sábado, janeiro 05, 2019

As casas

O olho da maçaneta via por dentro e por fora - aqui, nesta casa pequena; na casa de meus antepassados; até nos cômodos insuspeitos de construções esquecidas. Meu pai nos dizia da casa antiga no sítio da minha avó, desenhava os cômodos como eram antes da reforma. Me lembro vagamente dessa casa de antes, pouca coisa das paredes com a pintura estufada e descascada, as janelas com tramela, as vigas de madeira do teto sem forro. Não conhecemos as casas anteriores da minha mãe. Eram mais pobres, especialmente as da roça paranaense, isoladas numa existência árida. Mas em todas estas casas havia o gérmen, o meu gérmen, o gérmen de nós que estamos presentes agora, pois tudo é e vem a ser através daquilo pelo qual se torna.  

terça-feira, setembro 04, 2018

Unidade originária

O poema é de Angélica Freitas e se chama "eu durmo comigo"

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado

domingo, agosto 19, 2018

Régua ideológica

“A desqualificação do voto dos pobres e de tudo o que lhes diz respeito é sintoma de uma incapacidade crônica de empatia de uma parte de nossas elites, que também vota segundo seus interesses, mas que aprendeu a traduzi-los em princípios abstratos muito bonitos, como liberdade, empreendedorismo, empregabilidade.”
A afirmação é da socióloga Maria Eduarda da Mota Rocha e compõe o texto de Fabiana Moraes na Piauí, intitulado "Razão não depende de geografia. No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago". No centro das eleições, a ideia de racionalidade: de um lado, uma parte da população que se vê como elite esclarecida - mas que sequer compreende aquilo que é visto como pretenso oposto, a pobreza; de outro, a parcela da população afirmada irracional; ambas exercendo o direito de voto em concordância com seus valores e expectativas, mas apenas um dos lados tem sua escolha legitimada e vista como desinteressada. 

sábado, agosto 18, 2018

Torquato em ternura e tormento

Como seu pai, Torquato era um homem lindo e parecia muito doce, apesar de algumas poucas fotos já denunciarem um estado perturbado. Ando às voltas com suas palavras:

Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

terça-feira, agosto 07, 2018

Como surge o Eu

Quando eu lia sobre a doutrina dos antigos - mesmo com os não-tão-antigos, como no Empédocles de Hölderlin - sempre me assombrava a narrativa de unificação plena entre homens e natureza, uma natureza sem mistério em comunhão com deuses que andavam entre os homens. Mas nunca havia me ocorrido que esta unificação se dava entre os próprios homens, um universal indiferenciado no qual não distinguiam dos outros algo de si, de próprio. Eram todos Um.
"[...] os outros eram extensões ou modificações de si mesmo. Quando alguém não gostava do que via, atacava a si próprio, achando que, com isso, conseguiria extirpar o que lhe desagradava. Da mesma maneira, quando um homem encontrava uma mulher que lhe aprazia, buscava encontrar em seu próprio corpo, coçando-se, mexendo-se, a fonte daquele prazer. Também acontecia com muita frequência, é claro, de os indivíduos tocarem-se uns aos outros, atacarem-se ou conhecerem-se, mas sempre com a sensação de que aqueles encontros não eram nada mais que o corpo de cada um agregado à natureza. Assim, também não havia distinção entre os seres e as manifestações naturais ou cósmicas, como as árvores, o sol e o trovão..." (JAFFE, N. A verdadeira história do alfabeto).
Só quando o primeiro homem pôde perceber-se como unidade a marca subjetiva veio à luz - e para sinalizar a descoberta, cunhou uma letra, o E, da qual derivou-se o nome para o que descobrira: o Eu. 

segunda-feira, julho 02, 2018

Sobre a construção animal

A teia de uma aranha é, também, ela mesma - um processo que resulta numa fibra sintética que sai de si mesma, de seu ventre, e que se estende pelo ambiente. Vejo como se a aranha construísse algo que é uma continuidade de si, por meio do qual ela não só captura alimento (uma casa-caça), mas sente e pensa o ambiente. Esta é a hipótese com a qual filósofos e cientistas trabalham através do conceito de cognição estendida. Os experimentos provam que tipos diferentes de aranhas nem sempre seguem um procedimento automático na captura das presas, pois são capazes de improvisar novas técnicas de captura quando se interfere na estrutura da teia - inclusive nos raros casos de aranhas que vivem em colônias, numa espécie de cognição coletiva.
Para além da controvérsia da tese, de seus experimentos e críticas, é possível arriscar considerações: diferente de um joão-de-barro, o que é a aranha constrói é ela mesma, sai de seu próprio corpo e de seu próprio material. Fascina pensar na hipótese de uma construção que tenha tanto de você quanto você mesmo. 

Cf. ESTEVES, B. Teço, logo existo, in Revista Piauí, Edição 141, Junho 2018.