domingo, março 31, 2019

A casa do coração

Uma coisa cruel e bonita é que os lugares ficam: os que percorremos, que pretendi conhecer com você, os que foram objeto de uma conversa. Ainda há duas pessoas ali naquela esquina, ou na frente do cinema, ou andando pela larga avenida, um homem tocando levemente uma mulher no antebraço, na parte da carne macia, ou puxando a mulher para si na sala da casa que visitaram, há uma mulher parada na banca de jornal, caminhando com o sol na cabeça, esperando com cautela o sinal abrir, há dois corpos na cama, uma conversa relaxada, gostosa, torta de legumes, cerveja, café, yakissoba, arroz com feijão, comida indiana. Há este homem e esta mulher no território da lembrança. Toda vez que sinto tristeza por tudo isso que se dissipou no tempo, nos encontros que foram se tornando mais escassos e mais curtos, eu tenho que conceder a mim mesmo o direito de pensar que há beleza no mundo. (02.07.2018)

Um texto pode precisar de meses, talvez anos, para vir à efetividade sem doer; uma lembrança pode carecer de muito tempo para despertar beleza sem reabrir um buraco no peito. 

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Ornamento

Olho a igreja em seus detalhes. É preciso tempo, sentar-se confortavelmente, sossegar o espírito, minimizar os ruídos e diminuir os barulhos que adentram da praça da Sé até sentir, ouvir a atmosfera ondulando na fronte, passando entre os ouvidos. E então: levantar os olhos, mirar as pilastras, os feixes de colunas que conduzem os olhos sempre para cima, onde encontram os ornamentos. São repetições não exatamente geométricas, mas padrões vegetais, ramos com as folhas pequenas levemente descoladas da construção.


Fonte: http://www.imagens.usp.br/?attachment_id=8909

Mais acima está o teto de abóbadas de arestas, um céu pontudo sob a floresta de colunas. 

sábado, janeiro 05, 2019

As casas

O olho da maçaneta via por dentro e por fora - aqui, nesta casa pequena; na casa de meus antepassados; até nos cômodos insuspeitos de construções esquecidas. Meu pai nos dizia da casa antiga no sítio da minha avó, desenhava os cômodos como eram antes da reforma. Me lembro vagamente dessa casa de antes, pouca coisa das paredes com a pintura estufada e descascada, as janelas com tramela, as vigas de madeira do teto sem forro. Não conhecemos as casas anteriores da minha mãe. Eram mais pobres, especialmente as da roça paranaense, isoladas numa existência árida. Mas em todas estas casas havia o gérmen, o meu gérmen, o gérmen de nós que estamos presentes agora, pois tudo é e vem a ser através daquilo pelo qual se torna.  

terça-feira, setembro 04, 2018

Unidade originária

O poema é de Angélica Freitas e se chama "eu durmo comigo"

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado

domingo, agosto 19, 2018

Régua ideológica

“A desqualificação do voto dos pobres e de tudo o que lhes diz respeito é sintoma de uma incapacidade crônica de empatia de uma parte de nossas elites, que também vota segundo seus interesses, mas que aprendeu a traduzi-los em princípios abstratos muito bonitos, como liberdade, empreendedorismo, empregabilidade.”
A afirmação é da socióloga Maria Eduarda da Mota Rocha e compõe o texto de Fabiana Moraes na Piauí, intitulado "Razão não depende de geografia. No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago". No centro das eleições, a ideia de racionalidade: de um lado, uma parte da população que se vê como elite esclarecida - mas que sequer compreende aquilo que é visto como pretenso oposto, a pobreza; de outro, a parcela da população afirmada irracional; ambas exercendo o direito de voto em concordância com seus valores e expectativas, mas apenas um dos lados tem sua escolha legitimada e vista como desinteressada. 

sábado, agosto 18, 2018

Torquato em ternura e tormento

Como seu pai, Torquato era um homem lindo e parecia muito doce, apesar de algumas poucas fotos já denunciarem um estado perturbado. Ando às voltas com suas palavras:

Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

terça-feira, agosto 07, 2018

Como surge o Eu

Quando eu lia sobre a doutrina dos antigos - mesmo com os não-tão-antigos, como no Empédocles de Hölderlin - sempre me assombrava a narrativa de unificação plena entre homens e natureza, uma natureza sem mistério em comunhão com deuses que andavam entre os homens. Mas nunca havia me ocorrido que esta unificação se dava entre os próprios homens, um universal indiferenciado no qual não distinguiam dos outros algo de si, de próprio. Eram todos Um.
"[...] os outros eram extensões ou modificações de si mesmo. Quando alguém não gostava do que via, atacava a si próprio, achando que, com isso, conseguiria extirpar o que lhe desagradava. Da mesma maneira, quando um homem encontrava uma mulher que lhe aprazia, buscava encontrar em seu próprio corpo, coçando-se, mexendo-se, a fonte daquele prazer. Também acontecia com muita frequência, é claro, de os indivíduos tocarem-se uns aos outros, atacarem-se ou conhecerem-se, mas sempre com a sensação de que aqueles encontros não eram nada mais que o corpo de cada um agregado à natureza. Assim, também não havia distinção entre os seres e as manifestações naturais ou cósmicas, como as árvores, o sol e o trovão..." (JAFFE, N. A verdadeira história do alfabeto).
Só quando o primeiro homem pôde perceber-se como unidade a marca subjetiva veio à luz - e para sinalizar a descoberta, cunhou uma letra, o E, da qual derivou-se o nome para o que descobrira: o Eu.