quarta-feira, março 31, 2021

A transformação do tempo

A rua de tarde é das crianças e passarinhos. Adultos são passantes ocupados, carros e caminhões têm pressa, destino. Os passarinhos também têm um plano: trabalham nas árvores, sonoros, leves. Deve acontecer em breve: flores e frutos brotando. Me deixo observar por um tempo: a natureza é uma suspensão no caos da sociedade.

terça-feira, março 02, 2021

Tudo o que é preciso fazer para fazer alguma coisa

Os prés que condicionam o futuro desejado - ou, ao menos, adequado aos meus planos - me desesperam. Para começar é preciso dispor de muitas coisas: um certo conhecimento, o domínio do discurso, tempo, dinheiro, paciência na espera e muita sorte. Os fatores que posso controlar me pressionam dia e noite, os imprevisíveis, idem, e sem muita negociação os prazos rondam meu espaço mental. O tempo da espera, o tempo do preparo, o tempo da ansiedade, o tempo real, todos coexistem dessemelhantemente. 

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Romance de formação sem garoa

Em São Paulo se deu a maior parte do meu próprio romance de formação. Ali eu conheci não só a cidade grande, mas a filosofia, a política, o fluxo humano, a vida social, o gozo, a independência, o perigo, a desilusão, criei minhas esquinas clássicas, tive o sentimento de me apropriar de um lugar, pertencer a um lugar, crescer em um lugar - até que veio a roda viva e de repente já não fazia sentido tantas perdas para poucos ganhos e cada vez mais restritas possibilidades. Mas São Paulo povoa até hoje o meu imaginário e quando, vez ou outra, uma foto da cidade atravessa meu caminho, em um momento assim desavisado, transborda o mar de lembranças e o balanço, agora-que-não-estou-mais-lá, permanece positivo: tenho um carinho enorme por muito do que a cidade é e por tudo o que fui lá. 

segunda-feira, dezembro 28, 2020

Estou escavando uma vida

Abro os textos e vou em busca de vestígios, de entrelinhas, do dito bem como do apenas tencionado, do pensamento implícito. O caminho de um ser permanece pleno de rastros mesmo após a morte - rastros seja daquilo que ativamente se fez, seja daquilo que existia e que nesta medida influenciou, moldou potencialmente a existência e a obra. Uma vida não é um ser isolado; é antes organismo em sistema de troca com o exterior, em constante fazer-e-ser-feito. Então o caminho pra dentro, para o pensamento, pode ser também o caminho pra fora, para a efetividade. 

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Dessemelhanças

Ainda que unido no laço de uma mesma desgraça, o mundo é vasto. As investidas pelas quais a tragédia acomete povos e indivíduos são distintas em formas e graus, mas há coisa de um ano o mundo todo tem um véu sombrio incessante, incontornável. Agora se preparam para retirar o véu, mas ainda é preciso esperar baixar a poeira densa que se depositou sobre ele, e então fazer a limpeza dos móveis sujos, e lidar com as reações físicas ao pó e à retomada da exposição ao sol, que ficara obscurecido desde então, e lidar com os efeitos psicológicos de todos mas, sobretudo, dos mais cobertos pelo véu e dos que cuidam destes. Com a mesma força com que a ciência avança, a vida permanece um domínio do tempo que não é possível dobrar, manifestando por si suas vontades.

Só que na dessemelhança do mundo está contida também uma dose de beleza e ternura. Nos tempos cascudos e frios eu encontro todo dia já pela manhã uma surpresa, um carinho, que materializa a vontade de tornar o mundo um lugar mais agradável, e ao longo do dia surgem pequenos gestos e palavras que também sinalizam afeto e apoio, e de noite eu durmo com o amor. Eu não sei o que - ou se há mesmo algo que - controla esta sorte que eu tenho; mais do que agradecer, me faço consciente disso.

sexta-feira, novembro 06, 2020

Retrato de uma nova vida

As árvores já estão quase nuas e cobriram as calçadas com o tapete de folhas amareladas. Na cozinha agora é possível ver distintamente o prédio ao lado; quando começamos a passar o café juntos de manhã, há seis meses, mal se podia divisar o que havia por detrás destas árvores. Nestes seis meses as folhas vicejaram e caíram, os dias se tornaram frios, escurece cada vez mais cedo, nas ruas circulam casacos fugidios e máscaras, 

mas em casa é refúgio. 

As seis semanas que se tornaram seis meses me emocionam, e todo dia de manhã, quando você me dá um beijo e eu toco de leve seu rosto, e todo dia ao tomar nosso café-preto acompanhado da banana-com-aveia, e todo dia ao ver sua figura, seu perfil, seu corpo e sentir uma certeza íntima que nunca acreditei existir de que vamos viver muitos planos, todo dia eu sinto uma ternura tão grande, tão aconchegante, tão pacificadora: o amor é doce, quietinho e quentinho.   

terça-feira, setembro 10, 2019

Uma aprendizagem sobre entrega e sobre si mesmo

A frase de Loreley, que ainda não se sabia sereia, sai de supetão, transborda em urgência: "Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só"

domingo, agosto 25, 2019

Motivos

"Ich selber wirken? Nein, ich will verstehen. Und wenn andere Menschen verstehen; im selben Sinn, wie ich verstanden habe; dann gibt mir das eine Befriedigung wie ein Heimatgefühl".

sexta-feira, agosto 16, 2019

Íntimo

O mundo dos homens é uma armação construída de séculos: permissões estruturais, disposição interna, lugares que acolhem. Mas há vida em sua ampla totalidade fora disso; há beleza, mas mal entendidos; sol fraco nos dias de inverno, quando a razão retorna ao seu lugar de dor-de-cabeça, Palas Atena nascida da fronte de Zeus: sabedoria, consciência, lucidez, tudo isso tem seu preço. Eu penso que queria retroceder ao momento em que ainda não havia consciência do desejo, do olhar percorrendo o corpo que iniciou tudo (You're probably just having a mid-life crisis, eu pensei, repetindo o filme), do impacto da interlocução, de certas semelhanças e afinidades, da conversa relaxada no ambiente improvável e belo e calmo, algo rústico, algo ingênuo, quando a indiferença e dissimulações forçadas por circunstâncias não tinham razão de ser. Mas não somos seres do retorno:
A gente foi criado para criar
qualquer que seja o motor da criação.
Muitas das produções sobre e além da terra
não escapam às mãos humanas
que fazem casas, pães, textos,
desfechos de histórias, ao menos tentam, 
até que se eleve o incontrolável.
As boas surpresas me chegam quando estou distraída. Poético, mas uma mensagem também castradora: não tenho então o direito de desejar, de querer conscientemente as coisas?

quarta-feira, julho 10, 2019

Refúgio

Para me esconder das chateações e desagrados, daquilo tudo que não dá certo na hora, eu preservei um lugar. É físico e mental; é um destino sublime para onde ainda quero voltar, mas o território da lembrança tem sido mais acessível, uma pasárgada particular. 
Eu pensei muitas vezes durante os processos: quando passar o furacão, eu revisito como posso. As pessoas vão e o mundo é bom: são novos ares, novos impulsos. Mas particularmente sinto um medo danado quando o mundo se abre para mim, um medo de não dar conta, de fazer a escolha errada, queimar pontes e chances.
O que fica depois da tormenta, depois que tudo passa, é um alívio assim ressabiado, como se, subitamente, pudesse bater à porta - física ou eletrônica - um aviso qualquer de que ainda não acabou. Mas eu acho que é só desconfiança em relação à calma, pois o ritmo convulsivo criou certas ilusões de causa e consequência, como se resultados fossem sempre se suceder de modo imediato. Pode ser, porém, que eles sejam gestados lentamente, uma fermentação contida.

sexta-feira, maio 24, 2019

bucólica Geraes

Chão rangendo a cada passo no prédio histórico, janela para uma vista linda: casarões coloniais, morros verdinhos. Um homem tocando Clube da esquina numa ladeira de Ouro Preto numa noite gelada foi a experiência mais Minas Gerais possível. Todos esses cheiros, esses gostos, essas cores, esses sons, essas curvas das igrejas e subidas e descidas; sentar no alto do morro e olhar o sol caindo por trás das montanhas formaram uma sensação iniciada há sete anos, quando estive aqui e era tão outra, tudo tão diferente. Agora que sou quem eu queria ser, vejo bem o que quero me tornar; começo a desenhar os caminhos de execução e escolher os passos para trilhá-los. 


domingo, maio 19, 2019

Prosaico

Tão prosaico, vulgar, sem poesia: assim mesmo, desse jeitinho, é preciso lutar contra o medo e fazer daí uma obra consistente, trazer a público algo para elaboração, equilibrar valor e reconhecimento com modéstia. Estar calmo e aberto, respirar fundo e criar cenários positivos. Um passo de cada vez, é assim que se caminha. 

sexta-feira, abril 12, 2019

Propósitos para o futuro

Distraídos venceremos 
diz o poeta. Eu desacreditava um pouco pois acredito um tanto no trabalho e na consciência, e sequer sei se realmente concebo algo como uma vitória, uma batalha para se vencer.
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
diz o cantor, e sou confrontada com a necessidade de afrouxar o laço para deixar a ideia passar: 
Abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou

domingo, março 31, 2019

A casa do coração

Uma coisa cruel e bonita é que os lugares ficam: os que percorremos, que pretendi conhecer com você, os que foram objeto de uma conversa. Ainda há duas pessoas ali naquela esquina, ou na frente do cinema, ou andando pela larga avenida, um homem tocando levemente uma mulher no antebraço, na parte da carne macia, ou puxando a mulher para si na sala da casa que visitaram, há uma mulher parada na banca de jornal, caminhando com o sol na cabeça, esperando com cautela o sinal abrir, há dois corpos na cama, uma conversa relaxada, gostosa, torta de legumes, cerveja, café, yakissoba, arroz com feijão, comida indiana. Há este homem e esta mulher no território da lembrança. Toda vez que sinto tristeza por tudo isso que se dissipou no tempo, nos encontros que foram se tornando mais escassos e mais curtos, eu tenho que conceder a mim mesmo o direito de pensar que há beleza no mundo. (02.07.2018)

Um texto pode precisar de meses, talvez anos, para vir à efetividade sem doer; uma lembrança pode carecer de muito tempo para despertar beleza sem reabrir um buraco no peito. 

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Ornamento

Olho a igreja em seus detalhes. É preciso tempo, sentar-se confortavelmente, sossegar o espírito, minimizar os ruídos e diminuir os barulhos que adentram da praça da Sé até sentir, ouvir a atmosfera ondulando na fronte, passando entre os ouvidos. E então: levantar os olhos, mirar as pilastras, os feixes de colunas que conduzem os olhos sempre para cima, onde encontram os ornamentos. São repetições não exatamente geométricas, mas padrões vegetais, ramos com as folhas pequenas levemente descoladas da construção.


Fonte: http://www.imagens.usp.br/?attachment_id=8909

Mais acima está o teto de abóbadas de arestas, um céu pontudo sob a floresta de colunas. 

sábado, janeiro 05, 2019

As casas

O olho da maçaneta via por dentro e por fora - aqui, nesta casa pequena; na casa de meus antepassados; até nos cômodos insuspeitos de construções esquecidas. Meu pai nos dizia da casa antiga no sítio da minha avó, desenhava os cômodos como eram antes da reforma. Me lembro vagamente dessa casa de antes, pouca coisa das paredes com a pintura estufada e descascada, as janelas com tramela, as vigas de madeira do teto sem forro. Não conhecemos as casas anteriores da minha mãe. Eram mais pobres, especialmente as da roça paranaense, isoladas numa existência árida. Mas em todas estas casas havia o gérmen, o meu gérmen, o gérmen de nós que estamos presentes agora, pois tudo é e vem a ser através daquilo pelo qual se torna.  

terça-feira, setembro 04, 2018

Unidade originária

O poema é de Angélica Freitas e se chama "eu durmo comigo"

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado

domingo, agosto 19, 2018

Régua ideológica

“A desqualificação do voto dos pobres e de tudo o que lhes diz respeito é sintoma de uma incapacidade crônica de empatia de uma parte de nossas elites, que também vota segundo seus interesses, mas que aprendeu a traduzi-los em princípios abstratos muito bonitos, como liberdade, empreendedorismo, empregabilidade.”
A afirmação é da socióloga Maria Eduarda da Mota Rocha e compõe o texto de Fabiana Moraes na Piauí, intitulado "Razão não depende de geografia. No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago". No centro das eleições, a ideia de racionalidade: de um lado, uma parte da população que se vê como elite esclarecida - mas que sequer compreende aquilo que é visto como pretenso oposto, a pobreza; de outro, a parcela da população afirmada irracional; ambas exercendo o direito de voto em concordância com seus valores e expectativas, mas apenas um dos lados tem sua escolha legitimada e vista como desinteressada. 

sábado, agosto 18, 2018

Torquato em ternura e tormento

Como seu pai, Torquato era um homem lindo e parecia muito doce, apesar de algumas poucas fotos já denunciarem um estado perturbado. Ando às voltas com suas palavras:

Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

terça-feira, agosto 07, 2018

Como surge o Eu

Quando eu lia sobre a doutrina dos antigos - mesmo com os não-tão-antigos, como no Empédocles de Hölderlin - sempre me assombrava a narrativa de unificação plena entre homens e natureza, uma natureza sem mistério em comunhão com deuses que andavam entre os homens. Mas nunca havia me ocorrido que esta unificação se dava entre os próprios homens, um universal indiferenciado no qual não distinguiam dos outros algo de si, de próprio. Eram todos Um.
"[...] os outros eram extensões ou modificações de si mesmo. Quando alguém não gostava do que via, atacava a si próprio, achando que, com isso, conseguiria extirpar o que lhe desagradava. Da mesma maneira, quando um homem encontrava uma mulher que lhe aprazia, buscava encontrar em seu próprio corpo, coçando-se, mexendo-se, a fonte daquele prazer. Também acontecia com muita frequência, é claro, de os indivíduos tocarem-se uns aos outros, atacarem-se ou conhecerem-se, mas sempre com a sensação de que aqueles encontros não eram nada mais que o corpo de cada um agregado à natureza. Assim, também não havia distinção entre os seres e as manifestações naturais ou cósmicas, como as árvores, o sol e o trovão..." (JAFFE, N. A verdadeira história do alfabeto).
Só quando o primeiro homem pôde perceber-se como unidade a marca subjetiva veio à luz - e para sinalizar a descoberta, cunhou uma letra, o E, da qual derivou-se o nome para o que descobrira: o Eu.