sexta-feira, junho 26, 2015

Importâncias

Direito e liberdade: afirmação de que sim, você pode ser abertamente quem você é, amar quem quiser, construir uma vida com quem quiser e como quiser. Talvez só saiba o valor disso quem teve possibilidades negadas, restritas. Despreze instituições, questione a convenção, mas pense: cada indivíduo atribui em sua vida determinadas importâncias de acordo com sua história e experiência. Que significa para mim o casamento? Nada demais, um caminho, uma escolha, um possibilidade distante e longínqua - e que nunca me apareceu com um selo de "proibido". Nunca tive medo de abraçar quem eu quisesse, de beijar quem eu quisesse, nunca precisei esconder afeto ou conter um gesto de carinho. Não corro riscos por me expressar afetivamente, mas presenciei a importância disso vendo tantas pessoas queridas celebrarem espaços de segurança, onde lhes era permitido ser de modo pleno. Por isso, quando a grande nação influente decide, afirma, passa a assegurar esse direito, vivenciamos um momento histórico, 50 anos depois de Stonewall e em tempos sombrios de conservadorismo em território nacional. 
Que o amor seja uma possibilidade real para todos nós!

segunda-feira, junho 22, 2015

Pequeno monumento a Caetano

Tom Zé cantou um dia o envelhecimento da Brigitte Bardot, mas será que ele percebe o velhinho simpático em que Caetano se transformou? Enquanto o ouvia cantar na Praça Julio Prestes, vi um Caetano de cabelos brancos se desculpando por uma gripe que teria atrapalhado sua performance. Caetano, meu bem, você é parte da nossa vida, da nossa cultura, da nossa memória musical. Meus olhos marejaram, meu corpo se arrepiou e me emocionei tantas vezes neste seu show que não saberia descrever. No ranking de minhas imagens pré-morte estaria agora, sem dúvida, você com seu violão cantando Triste Bahia sob o céu deste junho gelado. Me fez sentir vontade de seguir o Olodum balançando o pelô, de rezar a novena de Dona Canô, de conhecer uma Bahia que é mais de sua infância que o presente. 

quarta-feira, junho 17, 2015

Imagens pré-morte

Se pudesse escolher minhas imagens pré-morte, meu olho refletiria:
Ilu Obá de Min tocando no Anhangabaú noite adentro, no Carnaval;
Igrejas de Ouro Preto e seu ouro, seus afrescos;
Gal cantando "vivemos na melhor cidade da América do Sul" na Virada Cultural;
O sorriso da irmã mais velha quando se casou;
A visita ao túmulo numa tarde chuvosa;
Sol batendo no prédio antigo, nas vielas do Stift

domingo, junho 14, 2015

Poesias

Há, sim, poesia no mundo. Tenho um conhecido que escreve naturalmente: conta as histórias de sua pequena cidade, documentando acontecimentos e figuras célebres que só a vida no interior sabe fabricar. Quando nos vemos - ainda que raramente - eu tenho a sensação de que ele, ali na minha frente, é sem dúvidas o mesmo cara que escreve; ele vive o que escreve, não finge, não produz artificialmente. Ele fala de coisas comuns, banais, da vida simples. Quando o leio é como se o visse, quando o vejo, é como se sua figura materializasse sua escrita. Há pessoas inerentemente, genuinamente poéticas. 

Aos poucos me torno consciente do que sou. Eu sou o que faço? Sou minha profissão? Ou minha profissão é uma ocupação?

***

Agora entendo, um pouco, o que quer dizer Thomas Mann, mas ainda por terceiros - pelas lentes de Luchino Visconti. Morte em Veneza é o artista perturbado, o passado castrador, a pergunta "o que me tornei, que caminho escolhi?" incessante. É o intenso mundo interior enquanto o exterior explode, queima. O peso de uma obsessão contra a realização do conceito: você trocaria o belo pela promessa de pequena eternidade contida na proteção à saúde? Todo o sentimento renegado, subjugado, vem à tona nas curvas do cabelo e do corpo, no nariz imponente e na postura nobre. Morte em Veneza é belo e triste, disseram; é arrastado, planos longos, horizontes, suor e tinta escorrendo, barulho de talheres e expressões levemente mórbidas. 

sexta-feira, junho 12, 2015

Mora na filosofia

A filosofia me abriu possibilidades. Eu fui, através dela, introduzida a mundos reais com os quais não tinha proximidade, ela me conduziu a novos países, a outras línguas; numa esfera subjetiva a filosofia despertou uma consciência diferente: o pensamento que se pensa, a consideração de que é preciso mesmo tempo, calma, leitura, introspecção e discussão para que uma ideia se desenvolva, para que uma pergunta se responda - sob a condição de que se responda apenas temporariamente, criando logo em seguida outra pergunta. A filosofia me trouxe um pouco de sensibilidade pra arte-cinema-música-poesia-fotografia-literatura, muita curiosidade pela religião-absoluto-culto-dogma, um clique para a ciência-técnica, uma certeza da importância da ética-moral, um tatear pela linguagem-lógica. E agora, me encontro novamente remetida ao seu núcleo duro, à filosofia por si só. Hegel, de onde parti, me encanta e impulsiona até hoje; tenho epifanias contínuas lendo Hegel no meio da tarde. 

domingo, junho 07, 2015

Fim

Não fui nada do que se esperava que eu fosse. Na verdade, ninguém é. Quando deveria ser engraçada e sorridente e cativante, era apenas eu mesma: um silêncio e a escuta. Quando deveria ser passional, era fria. Quando deveria ser a melhor, a mais dedicada, a que mais falava de seus projetos e de si mesma, eu não estava nem aí pra isso. É porque eu gostava muito de você e só queria ficar numa boa com isso, queria te ouvir mais do que falar. Mas aparentemente não era o bastante e eu fiquei assim, com uma mágoa idiota, com um ressentimento besta, apesar de saber que a imagem que ainda faço de você não corresponde em nada à realidade. Não gosto das suas imagens, são fracas; seu jeito de escrever é afetado, cheio de floreios, enfiando palavras difíceis no lugar errado e separando sujeito do objeto com vírgula. Algo me diz que esse gostar desiludido e todo errado na verdade nem é pra você. É pra alguma coisa que criei e que se dissolveu na minha cabeça, sem muita existência própria.  

quinta-feira, junho 04, 2015

A softer world

Estou cansada.
C A N S A D A
Pedacinhos do meu corpo pedem descanso e algumas horas a mais para terminar os trabalhos, sentir a cidade, resgatar a lucidez. Estamos todos amedrontados mediante a possibilidade iminente de enlouquecer. É claro, há que se perguntar: que é a loucura? que é a razão? Desconfio cada vez mais de que existe um mundo fora do círculo burocrático, das relações diplomáticas, um mundo íntimo que só se compartilha consigo mesmo, mas vivido no externo. Não é um parque de diversões na cabeça, é ~real~. 
Hoje, enquanto descia de ônibus a rua movimentada, capturei a cena: no boteco-pé-sujo, homens se amontoavam na porta bebendo cerveja e olhando as garotas. Lá dentro, meio de costas pra rua, um senhorzinho tocava um violão como que fazendo uma serenata pra cachaça à sua frente, pousada sobre a mesa. Segurava o violão como os sertanejos antigos, era muito humilde, roupas simples, sem chapéu. Bebia cachaça. Com os fones de ouvido e de dentro do ônibus não pude ouvir sua música, nem os homens parados à porta, nem o garçom, nem os passantes. O violeiro nitidamente vivia a realidade dele, no mundo dele, inacessível a qualquer um que não fosse ele.