quinta-feira, novembro 26, 2015

todo mundo e ninguém

#meuamigosecreto interrompe sistematicamente mulheres, não confia nas explicações delas mas usa seus argumentos - sem dar crédito - para discutir com outros homens. Se relaciona com mulheres como se fossem objetos de decoração ou crianças, tem sempre um tom paternalista e condescentente, não as trata pelo nome senão por "linda", "gata", "meu amor" - não, ele não trata nenhum de seus amigos assim. Faz questão de beijá-las, abraçá-las e tocá-las em toda situação, inclusive nas mais descontextualizadas; distribui beijos melados e abraços demorados. Divide as mulheres entre as "bonitas e burras" e as "inteligentes e...você sabe, não quis dizer que não são bonitas". Divide mulheres entre as "pra casar" e "pra trepar", comemora a libertação sexual - afinal, mais mulher pra transar com ele, né? Mas meu amigo secreto tem a convicção de que todas as mulheres que saem com ele querem namorar com ele, casar com ele, inventam planos durante a madrugada para engravidar dele, repovoar o mundo com sua sagrada semente! E ai delas se tentarem discordar - ele está sempre a postos para abençoá-las com sua iluminada opinião, para mostrar uma verdade que elas não veem. Meu amigo secreto não acha que mulheres devam ter cotas de representatividade em empresas porque TODO MUNDO sabe que mulheres não lideram bem, são mais emocionais, né? Não é por nada, mas ambientes com mulheres sempre dá problema, elas sempre acabam brigando, né?
Meu amigo secreto não se resume em uma pessoa só mas se expressa individualmente, está espalhado por aí em atitudes corriqueiras.

quarta-feira, novembro 25, 2015

As justificativas

Li um interessante artigo chamado "Orientalismo e guerra ao terror: uma biografia do fracasso", de Murilo Cleto. Eu, pouco entendida da situação atual mas cética em relação às justificativas correntes, achei esclarecedor acompanhar o processo de formação de uma imagem que embasa ações e a escolha de um lado da história.
É elucidadora a explicação do autor sobre o Oriente como invenção do Ocidente, em referência a Edward Said, bem como a transformação do termo "bárbaro" ao longo do tempo. No fundo se trata da insistência no processo de diferenciação entre "eles" e "nós", que dá abertura aos ataques e preconceitos contra "eles" a fim de proteger esta sagrada instituição que somos "nós". O orientalismo, afirma Cleto citando Said, é “'um estilo de pensamento baseado numa distinção ontológica e epistemológica feita entre o ‘Oriente’ e o ‘Ocidente'. E orientalista é, portanto, todo aquele que ensina, pesquisa, escreve sobre o Oriente e aceita a clivagem entre Leste e Oeste como ponto de partida para o mapeamento de suas caracterizações políticas, culturais e sociais". Com minhas palavras: a voz do "nós" ao falar sobre "eles", ao termos a pretensão de falar por "eles".
Um aluno da Síria frequentemente me alertava sobre como esta ideia de um "lá" que não é como "aqui" pontua as relações. E que na real ninguém se define exclusivamente por ser de "lá" ou "daqui". Me parece que falta isto: ouvir as pessoas, não enquanto alguém de "lá", mas como qualquer pessoa que tem algo a dizer. Falávamos hoje de profissões e brinquei a respeito do modo pessimista como ele descrevia as atividades dos pilotos. Ele se explicou: "é que no meu facebook vejo o tempo inteiro aviões caindo e destruindo cidades e pessoas..."

E por fim, um trecho que ficou na minha cabeça, martelando a ausência de artefatos e categorias para lidar e compreender o "eles": "Maomé não é odiado apenas por ser um profeta como qualquer outro, mas por representar uma espécie de anticristo diante da lógica maniqueísta de compreensão teocêntrica do mundo". 

segunda-feira, novembro 16, 2015

Os 26

Os tempos estão estranhos. A História impõe sua força sobre o indivíduo e sobre nós. Enquanto construíamos nosso interno, discutíamos como melhorar a comunicação, a troca, falávamos sobre como é bom estarmos juntos, o mundo se movia fora do nosso cômodo iluminado por luzes vermelhas, dos nossos toques e tecidos, dos nossos corpos-em-um-só. O mundo queimou na noite dos meus anos - não porque eram meus pois nada há de especial nisso ou em mim; e a bem dizer, o mundo tem queimado há tempos, a guerra come a terra há tempos, a lama e a sujeira soterram a vida há tempos. Decretam luto e morte estas barbáries e barbaridades todas. Enquanto isso, aqui dentro a vida desperta em sentimentos. 

sábado, outubro 31, 2015

A linguagem dos compromissos

"Tempo a gente tem o quanto a gente dá": o pretexto da falta de tempo, batido, sobre o qual se apoiam as não-vontades. A linguagem dos compromissos é inevitável - quem irá desmenti-la? Quando um se diz ocupado, o outro aceita. Mas cabe, sim, a desconfiança, não pelos motivos, que não me interessam, mas pelo significado da ausência. Na real, ninguém tem tempo, a gente arranja tempo para as coisas que são importantes. Problema é quando me sinto sempre arranjando tempo, escarafunchando os horários pra fazer caber uma noite juntos, e não há reciprocidade. Aí é sinal de algo errado e hora de pular fora. 

sábado, outubro 17, 2015

Tornar-se aquilo que se via no outro

Um exercício de paciência, de confiança, de esperança, de disponibilidade. Não é dom ou talento - é esforço, atenção, pensamento. Ensinar é uma escolha, uma atividade, não é algo dado, presenteado de cima ao nascer. Ao menos não para mim.
Hoje, enquanto cozinhava, me lembrei de um episódio ocorrido há uns quatro anos: encontrei no mercado um colega que à época era professor e encerrara o trabalho naquele dia; morávamos perto, fomos embora juntos e muito provavelmente por educação ele me chamou para subir no seu apartamento. Na hora não pensei na pertinência do convite porque tinha uma queda gigante por ele, mas tão logo entramos, percebi a fome que o dominava, aquela fome que não deixa pensar, falar, só deve ser urgentemente saciada. Sentado à minha frente comeu vorazmente enlatados diversos: milho, ervilha, atum ou sardinha, todos misturados entre gemidos de satisfação, um prazer quase sexual que, para falar a verdade, não cheguei a presenciar nele outra vez - nem mesmo quando tempos depois chegamos ao ato em si.
Pois que então nessa sexta-feira, enquanto preparava minhas aulas, me peguei abrindo latas de comida e misturando tudo junto a alguns legumes. Um estalo na mente e de repente eu era ele ali: professor particular, cursando mestrado, deslocando-se pela cidade durante a semana, engolindo alguns sapos e questionando a si mesmo. Eu percebi hoje, nitidamente, o quanto naquela época este modo de ser me fascinava, tão solto no mundo, sem CLT, quase sem patrão, sorvendo os teatros de São Paulo volta e meia com algumas cervejas e uma cabeça muito aberta. Me tornei o que admirava. E continuo a admirar o que agora sou?

quarta-feira, outubro 14, 2015

O ato de nomear

O escritor é, me parece, aquele cara que nunca parou. Nos idos 2012 ele já escrevia, talvez tivesse escrito desde todo o sempre de sua existência até aquele momento, em 2012, a partir do qual sua escrita e existência passaram a existir para mim. E depois de 2012 ele prosseguiu: volta e meia me surgia seu nome em notícias que eu não procurava, mas saltavam no computador. O escritor é, apesar de eu não o ter achado super genial pelo pouco que eu li. A bem dizer, achei raso, apesar do verniz cultural ali presente, mas quem sabe eu me surpreenda. O fato é que: ele é. Carrega um título, entrou na seleta lista dos caras relativamente conhecidos, algo meio underground que - por isso mesmo, diriam - deveria representar uma grandiosidade, aquela dos escritos nunca reconhecidos. Mas para além disso, me lembro dos dias de breve convivência e tenho um ímpeto, uma intuição, de que algo há de surpreender. Era um cara cheio de ideias boas e muito simples. Deve ser que seu romance, mesmo que não biográfico, possa portar alguma coisa assim também.

terça-feira, outubro 13, 2015

Reconciliação

Eu já não me lembrava de alguns apelidos, olhei para algumas pessoas com estranhamento - alguns mais gordos, mais velhos, com o rosto marcado pelo tempo. Mas eles, o centro da reconciliação, lembravam de tudo: olhavam as fotos, compartilhavam lembranças e sensações que nunca saberemos ao certo como eram. As casas antigas onde moraram, as roupas daquela época, a pobreza absurda, as baratas que pairavam à noite. Fiquei olhando minha mãe (re)construir sua história, como ela mesma disse, junto do irmão outrora afastado. As fotos rodaram de mão em mão, os filhos do meu primo conheceram imagens da avó e da bisavó em um tempo longínquo que habita recordações quase soterradas: mas alguém puxou as lembranças para fora, pra superfície do presente, e de repente estávamos todos num churrasco de domingo tentando superar os anos, as diferenças, pra ver se dá pra reatar os laços. Aí eu me toquei de que não só eles estão diferentes, nós somos outros - o tanto que nossa vida mudou desde então! Foi um bom domingo. Presenciei um momento como os que costumo ler: a família, sendo a última unidade política moderna, se representa de variadas formas no romances familiares, quiçá meus preferidos, sobretudo nos conflitos. E nas reconciliações.