A romantização da mulher forte, guerreira e determinada serve muito bem à sociedade que nega direitos, quase a ponto de justificar que a gente tenha mesmo que se desdobrar na vida porque naturalmente seríamos assim, feitas para suportar a dor e o peso do mundo. Tenho um orgulho absurdo das mulheres da minha vida: avós, mãe, irmãs, amigas, parceiras ou figuras longínquas que admiro, mas eu preferiria sentir orgulho só das conquistas e das histórias positivas e não porque sobreviveram a tentativas de assassinatos, abusos, assédios de toda sorte, ou porque criaram filhos sozinhas ou em guardas compartilhadas ilusórias, ou porque faziam três turnos pra dar conta das coisas, ou porque ilustram as estatísticas de uma denúncia a cada 7 minutos, ou porque abandonaram seus sonhos para ser o alicerce de alguém. Quero que sejam lembradas pelas escolhas e porque tiveram escolhas, porque foram o que quiseram e não o que tiveram de ser. Um ano inteiro de descaso para um viva às "super-mulheres" - e passada a data e as flores, há o retorno ao esquecimento, ao apagamento, à exclusão do mercado de trabalho ou aos subempregos, ao isolamento no exercício da maternidade, aos relacionamentos que minam a autoestima. Que a luta e a força sejam características nossas quando - e se - a gente quiser.
terça-feira, março 08, 2016
segunda-feira, março 07, 2016
Conversa íntima
Não me lembro se fiz planos para 2016. O fim de ano chegou e passou rápido e sem anúncio; em uma semana já estava tudo de volta mas não estava, e desde então ficou muita coisa em suspenso. Terminar um projeto. Começar o próximo. Organizar o tempo. Arrumar um trampo mais estável. Estar mais atento e consciente. Conciliar as demandas afetivas minhas e dos outros, abrir espaço, dar apoio e estimular que as pessoas queridas se encontrem - eu sei, eu sei, mesmo que isso signifique longe de mim. O aprendizado de ser livre inclui permitir que certas coisas se ajeitem em seu tempo, mas ocorre que sou muito impressionável, sensível demais ainda a algumas coisas; noto variações, elas me preocupam, não sei como articular os incômodos, logo tudo vira um nó por dentro e paraliso. O justo equilíbrio entre o que preciso e o que esperam me pesa, ainda que seja evidente: não há muito o que fazer, não dá pra ser mais do que a gente é.
sexta-feira, fevereiro 19, 2016
Dos modos de carinho
"Cozinhar não é um serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros".
Não li Mia Couto, mas a citação me fez muito sentido. E quanto mais penso, mais faz sentido o peso do ato. Cozinhar para pessoas queridas é a extensão do carinho. Existe o cozinhar burocrático, mas existe o cozinhar atento, que considera o tempero para cada paladar, que ao longo do preparo tenta imaginar a expressão do outro ao provar um prato, por menor que seja, por mais simples que seja.
Leituras
Como ler as pessoas:
potencialmente através do que falam dos seus. Carinho e respeito para com aqueles que são e foram importantes indicam uma mente acolhedora e que lida de maneira boa com os relacionamentos - atuais, passados e futuros. Gabar-se de provocar ódio em um ex-companheiro pode indicar uma visão no fundo extremamente romanceada de relacionamentos, como se devessem percorrer um arco narrativo de fortes emoções. Isto me disseram uma vez e dei razão; hoje em dia prezo muito pela minha paz em silêncio, pela convivência mas pelo espaço, pelo acréscimo vindo de boa-vontade e não pela exigência; pelo quentinho no coração e pelos olhos fechados no abraço; não pela ausência de sono, nem de fome, nem pela construção de brigas pelo mero prazer da reconciliação, menos ainda pelos jogos de quem-deve-falar-o-que-e-quando.
sábado, fevereiro 06, 2016
Distraídos venceremos?
Desvendando os sentimentos ao conversar com alguém: "você só passa coisas boas" é o tipo de comentário positivo a se ouvir. As primeiras impressões eu quero documentar: calmaria, olhar tranquilo de quem não enxerga muito bem, o diálogo sem pressa de tirar conclusões. Temos bastante a descobrir sobre a pessoa do outro lado. É curioso notar a diferença de perspectiva de tempo: um plano para depois dos 40 ainda me é tão distante que quase soa como uma brincadeira, mas depois notei seus cabelos grisalhos enquanto andávamos pelas ruas. E, honestamente, são tão charmosos quanto a conversa franca e os desenhos pelo corpo.
O problema é que: ajeita aqui, fica campenga acolá. Será possível ter satisfação e bons resultados no trabalho E grana E boas relações intersubjetivas? Tempo e dinheiro, saúde e prazer, cuidado e desprendimento?
O problema é que: ajeita aqui, fica campenga acolá. Será possível ter satisfação e bons resultados no trabalho E grana E boas relações intersubjetivas? Tempo e dinheiro, saúde e prazer, cuidado e desprendimento?
Anos dourados
As fotos aleatórias contam uma história: no início eram felizes. Um terceiro documentava os passeios, num claro indício de uma família receptiva e com "amigos do casal". Numa das fotos, diversas felicitações pelo novo filho. Comemorações de aniversário, casamento, passeio no parque. Nas mais recentes poucos comentários, e vez ou outra uma tentativa de descrição retroativa: uma das partes afirma que ali acontecera tal coisa, observações que me soam uma busca pelo perdido, por resgatar o ambiente daquela época. "Éramos assim, fazíamos isso". Já agora surgem fotos da família fragmentada: os filhos nao aparecem mais juntos, menos ainda os pais.
Tenho uma sensação estranha nesta narrativa, porque me reconheço um pouco envolvida. Cheguei depois, mas ainda posso imaginar o efeito do verso: "me vejo ao teu lado; te amo? nao lembro". É possível esquecer o sentimento? Negá-lo, sim; superá-lo, talvez; mas esquecer algo grande, a construção de uma história, de uma família, de uma vida juntos - ainda que de mentira - nao me parece cabível.
segunda-feira, fevereiro 01, 2016
Por quem os sinos dobram
As primeiras impressões sobre Hemingway são empolgantes. Por quem os sinos dobram tem sido um livro diferente e daí o interesse em documentá-lo enquanto leio. A história parece viva e humana e a descrição detalhada faz imaginar texturas da camisa, do saco de dormir, dos cigarros, do cabelo curto de Maria; atiça o paladar com lembranças inexistentes imaginando o vinho e o cheiro da caverna: uma mistura de suor, comida, fumaça e tensão. O tempo é seco e as pessoas são duras - a princípio. Política, História, uma relação que nasce direta; cavalos, montanhas, dinamites. A descrição das paisagens, caminhos, estradas e da ponte me detém: qual o interesse dos detalhes senão nos permitir (re)criar a História?
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